A psicóloga e doutora em Medicina Preventiva, Lis Andréa Soboll fala sobre sofrimento no ambiente de trabalho.

Publicado: setembro 26, 2012 em Cotidiano
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A psicóloga e doutora em Medicina Preventiva Lis Andréa Pereira Soboll, professora da UFPR, volta ao TRT10 para apresentar o workshop “Vivências subjetivas no trabalho: sofrimento e adoecimento das relações”. A iniciativa da Escola Judicial possibilitou a servidores do Tocantins, do Foro de Brasília e da Sede (nos dias 20 e 21) refletir sobre temas como assédio moral, processo saúde-doença relacionado ao trabalho, saúde mental e trabalho, adoecimento e afastamento do trabalho – suas causas e implicações, formas e mecanismos de controle organizacional, entre outros.
 
Sofrimento no Trabalho em questão – A desembargadora presidente Elaine Vasconcelos abriu o workshop no Foro de Brasília pela manhã e no Edifício Sede à tarde (21), e esclareceu a origem desse projeto ligado à saúde e desenvolvimento de pessoas, com ênfase na educação continuada dos servidores do TRT10.
 
Segundo a presidente, a iniciativa deriva de uma preocupação com o número significativo de doenças psicopatológicas (como a depressão) vinculadas a vivências no trabalho. “A ideia surgiu de um conhecimento tácito da vida – de que o mundo está sofrendo de um mal que tem nascedouro em vários ambientes, um dos quais é o ambiente de trabalho.
 
Este pode ser a salvação, o que dá prazer e reconhecimento ao indivíduo; mas também pode ser em alguns momentos motivo de profundo sofrimento. Daí surgiu a proposta de fazer algo concreto pelo Tribunal, agindo no sentido de minimizar o sofrimento de servidores e magistrados, para melhorar a relação homem-trabalho”, disse.
 
Para a desembargadora Elaine Vasconcelos, a questão em pauta é: como podemos trabalhar melhor diante de tantas pressões no ambiente de trabalho? “As mudanças na vida e no trabalho podem ser momentos difíceis. Liz Soboll nos traz reflexões sobre questões fundamentais como assédio moral e as mudanças nas relações de trabalho em um mundo globalizado.
 
A solução é entender o outro, compreender as mudanças e refletir sobre elas para podermos agir com solidariedade para melhorar nosso espaço de trabalho, tornando-o mais fraterno e humano”, sublinhou a presidente. O intuito é que os servidores tenham informação e auxílio para melhor vivenciar as relações em todos os âmbitos de suas vidas – social, familiar, amoroso, e no ambiente de trabalho.
 
Estudos de um problema atual – Lis Soboll lembrou antes de começar a palestra do privilégio que é poder discutir essas questões sobre o ambiente de trabalho no âmbito do TRT. Considerou que sua pesquisa e seu trabalho se fundamentam em uma reflexão sobre as problemáticas nessa área e em uma proposta de intervenção na realidade a partir desse conhecimento.
 
“Trabalhar é viver junto, e ao vivermos juntos nos transformamos”, afirma a psicóloga. Ela ressaltou a importância de reservamos esse momento em que podemos nos distanciar de tantas pressões e pensar como essas pressões se refletem no nosso corpo e no adoecimento das relações.
 
Liz Soboll demonstra como a sociedade contemporânea atribui ao trabalho um papel de realização dos indivíduos, e avalia como esse processo de individualização faz com que as pessoas se associem a partir de vínculos utilitários de interesse. Usando exemplos concretos como o Facebook e a globalização econômica, destaca como a dissolução das fronteiras do tempo e do espaço afetam as relações pessoais e do trabalho.
 
Neste último, a intensificação do ritmo derivada do desenvolvimento tecnológico resulta em maiores exigências em termos de produtividade e resposta em tempo real – a qualquer hora, em qualquer lugar, as informações estão disponíveis, tornando difusas e permeáveis as fronteiras entre o tempo do trabalho e o tempo da vida privada.
 
“Por a informação estar disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, somos roubados do controle do tempo. A supervalorização do imediato e a hiperconectividade criam sentimentos de frustração, ansiedade e alerta. Há uma falsa imagem de uma rede muito ampla de apoio social, como no Facebook, mas perde-se a dimensão presencial, de olho no olho, e das relações de longo prazo”, afirma.
 
Para a professora Lis Soboll, os novos vínculos geram relações superficiais, de curto prazo e utilitárias, em que as pessoas são descartáveis, o que corrompe e transforma o nosso caráter.
 
No âmbito do trabalho, tudo é urgente, imediato, para ontem, e aqui também se revelam as mudanças de padrões no sentido da flexibilidade e descartabilidade das relações. Outro aspecto é a valorização de resultados parciais de algumas poucas tarefas que são feitas.
 
Lis Soboll mostra como, na configuração atual do mundo do trabalho, “sempre temos que fazer mais. Tudo deve ser traduzido em números, porque só a quantificação atribui valor. O que é efetivamente realizado é muitas vezes invisível, porque não se encaixa nos que é valorizado pelo empregador”.
 
Dada a flexibilização dos valores, a sociedade oferece o trabalho ou a carreira como o espaço de realização e reconhecimento do indivíduo. Mas essa ideologia traz implícita a ideia de que se não chegarmos “lá”, no sucesso, a culpa é exclusivamente da pessoa. Liz questiona se de fato o trabalho deve ser o fator fundamental nos projetos de vida, e lembra que o que nos constitui como sujeitos plenos tem uma dimensão muito mais ampla, que deve ser levada em conta – aspectos como relações afetivas, familiares, de amizade, que são também fundamentais.
 
Em suas palavras, “É dado um lugar ao trabalho que não é dele. Tudo é centrado nele, e não na dimensão do amor. É necessário às pessoas outras referências de si, além do trabalho, pois ele pode prover a realização financeira e profissional, mas não a emocional. Se somos coniventes com esse processo de coisificação, nos tornamos os maiores exploradores de nós mesmos”.
 
A professora elenca os principais fatores de sofrimento no trabalho – medo da incompetência, pressões do tempo e políticas que afetam a qualidade do trabalho, falta de esperança de ser reconhecido –, e associa-os ao enfraquecimento dos vínculos grupais de força, como a ruptura dos movimentos sindicais de colaboração.
 
Todo esse quadro leva a novas formas de adoecimento, que são estratégias de defesa do organismo para o que identifica como ameaça. Entre elas, Lis Soboll destaca as patologias da sobrecarga – como LER/DORT, ou a síndrome de esgotamento emocional (“burnout”); as patologias da solidão; e as patologias da violência – assédio moral e suicídio. Alerta para a aparência de normalidade que camufla o sofrimento. Lembra que o sofrimento é um alerta, um sinal do corpo que promove a possibilidade de reflexão sobre o que estamos fazendo.
 
Como conclusão, Lis Soboll ressalta que existe um espaço de ação e mudança, e que cada um de nós pode ter uma grande influência nas relações com sua equipe. Cita Carlos Drummond de Andrade para afirmar: “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade”.
Fonte: Tribunal Regional do Trabalho 10ª Região Brasília,25.09.2012

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